quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Génesis 1, 27

Criado à imagem e semelhança de Deus, o homem assume-se cada vez mais como um Seu retrato desfigurado, um reflexo esbatido, uma sombra lúgubre. Prefigura-se, paulatinamente, enquanto rasto degenerativo da divina essência em si infundida pelo sexto dia do Génesis. Ou talvez não. Talvez o defeito esteja, de facto, no Sumo Demiurgo, em si mesmo já maneta, perneta, estrábico ou simplesmente com hemorróidas na alma. Prefiro aceitar esta última explicação, lavando as mãos (qual Pilatos) da mácula da insignificância e devassidão que nos é inerente e que nos impregna o espírito. Penitenciemo-nos, porém, e peçamos perdão a Deus Nosso Senhor, Criador dos Céus e da Terra, para que não se ofenda com tamanhas injúrias e heresias e não logre exercer sobre nós o infinito poder com a sua furiosa mão, aquela que ainda lhe resta. Oremos.

Debalde procuram os homens, ab aeterno, a glória tão almejada neste mundo insípido, cloaca de efémeras aspirações. Mas até essa glória é passageira. No fim, quando tudo se consumir, apenas restarão os fragmentos dos gestos nobres que tivemos, dos olhares cruzados sob um silêncio emudecido, aqueles pequenos momentos que marcam uma vida, que unem duas. Acredito ser este o traço que nos singulariza. Gostava que fosse este o traço que nos singulariza.
Que importa olhar para o céu, quando é na terra que está a Vida, a Alma, o Amor?! Que importam desmedidas ambições, quando no crepúsculo nos reduzirmos a um mero punhado de areia, a um momento, a um gesto, a um beijo?!
Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar”…, porque, como diria alguém especial,…o amanhã não existe.
A vida são dois dias e o primeiro já vai na conta. Carpe Diem

3 comentários:

Anónimo disse...

Adorei as "hemorróidas na alma".
x) ***

Rita disse...

No último parágrafo expões a eterna questão: Para quê desejar o grande se é nas mais simples e mundanas coisas que encontramos a felicidade? Muito bom texto (só é pena ter que recorrer tantas vezes ao dicionário ;)). E sim, o mal da humanidade é, definitivamente hemorróidas na alma. Bjs

Eduardo Martins disse...

more than words...the spirit :D
fantástica a tua visão...
abração, brodar :P